terça-feira, 30 de março de 2010

O Espaço Intermédio

João de Almeida Santos

(Novo!)

[Publicado também em http://www.tendencias21.net no Blog «comunicacion/es»]
[Ver, agora, também, em «Ensaios», a nova versão de 1. «Reflexões sobre a crise»]

En este ensayo intento hacer una reflexión sobre el concepto de «espacio intermedio», categoría central en la «geografìa situacional» y cognitiva del hombre contemporaneo. Mi reflexión está centrada en el excelente libro de Silvano Tagliagambe, «El Espacio Intermedio. Red, individuo, comunidad», publicado por las ediciones «Fragua», de Madrid, en cooperación con el ThinkCom-Instituto de Pensamiento Estratégico, coordenado por el Prof. Jesús Timoteo, de la UCM. Este concepto está hoy en el centro del pensamiento contemporaneo pues que permite comprender la mutación del paradigma cognitivo moderno hacía nuevas formas de relación cognitiva de los individuos con la realidad y los otros. Tagliagambe nos propone una sólida fundamentación del concepto de «espacio intermedio», visitándolo en sus varias expresiones científicas y evolucionando hacía una llave de lectura centrada en la red.

O «Espaço Intermédio» é um livro de Silvano Tagliagambe, publicado em Itália em 2008, pelas edições da Universidade Bocconi («Lo Spazio Intermedio. Rete, individuo e comunità»), de Milão, e, recentemente, em Madrid, pelas edições «Fragua», em cooperação com o ThinkCom, Instituto de Pensamiento Estratégico, da Universidade Complutense de Madrid, dirigido pelo Prof. Jesús Timoteo (Tagliagambe, Silvano, 2009, El Espacio Intermedio. Red, individuo y comunidad, Madrid, Fragua, pp. 240)
. O autor, filósofo italiano, professor nas Universidades de Roma, «La Sapienza», e de Sassari, na Sardenha, propõe-nos, nesta interessante obra, uma reflexão em torno do conceito de «espaço intermédio», como proposta de resolução daquele que vem sendo, afinal, o mais antigo problema com que, há séculos, se confronta a tradição filosófica: o problema da mediação entre ser e pensamento, género e indivíduo, universal e particular. Problema que o Professor Tagliagambe identifica com uma fórmula feliz e eficaz: a «ansiedade cartesiana», filha de um dualismo incomponível entre a ideia e a matéria que tanto trabalho tem dado à filosofia ocidental.

1. «O Espaço Intermédio, rede, indivíduo e comunidade» é um excelente livro: cientificamente culto e conceptualmente rigoroso. Rico na diversidade de enfoques, de perspectivas sobre o tema central, mas rigorosamente desenvolvido segundo um claríssimo fio condutor: precisamente a ideia de espaço intermédio. Uma ideia verificada nos vários ramos do saber, com incursões analíticas nos vários domínios das ciências, desde a geoquímica, com o russo Vernadski, até à biologia, com Stuart Kauffmann ou o russo Alexei Ujtomskij: o «mundo intermédio», dizia este, teorizado e elaborado conceptualmente por Florenskij, não é só uma entidade abstracta, mas também a dimensão em que se forma e se desenvolve a identidade pessoal de cada um de nós; desde teoria da literatura, com Michaïl Bachtin, à filosofia, com Thomas Kuhn ou Wittgenstein, à neuropsicologia, com Luriya, à linguística e à teoria da linguagem, com Vygotski, ou ao universo das redes de comunicações, com Chris Anderson, etc., etc..
Ou seja, um conjunto vastíssimo e diversificado de argumentações científicas em torno da fundamentalidade do conceito de «espaço intermédio».

2. O conceito de «espaço intermédio», de resto, eu próprio o encontrei, e valorizei, pela primeira vez, no livro de Joshua Meyrowitz «No sense of place. The impact of electronic media on social behaviour (New York, Oxford University Press, 1985). Dei-lhe uma certa atenção na minha tese de doutoramento e, em particular, tendo em conta a excepcionalidade da obra onde o encontrei (Meyrowitz, por esta sua obra, foi justamente considerado como um segundo McLuhan). Mas hoje, depois de ter reflectido sobre esta obra de Silvano Tagliagambe, ter-lhe-ia dado, sem qualquer dúvida, uma importância muito maior. Rezava assim, a passagem de «No Sense of Place», tendo como pano de fundo os media electrónicos:

«partindo dos conceitos de espaço de bastidores e de palco, o novo comportamento produzido pela fusão das situações [a de palco e a de bastidor] pode ser definido como “espaço intermédio” (…). E continua Meyrowitz: «Instaura-se um comportamento de espaço intermédio quando os espectadores assumem uma perspectiva “de palco lateral”. Isto é, eles vêem algumas partes dos bastidores tradicionais e algumas partes do palco tradicional; vêem o actor passar dos bastidores para o palco e vice-versa».

A antiga fronteira passa, pois, de muro separador a ponto de contacto. Ou melhor: acaba a fronteira. E diria mais, entrando a fundo na tese de Meyrowitz: com os media electrónicos, as fronteiras convencionais, sejam elas geracionais, sexuais ou políticas, desaparecem, alterando-se, assim, a própria geografia situacional dos indivíduos. Ou seja, todos eles passam a ocupar um espaço intermédio a partir do qual se relacionam cognitivamente com o real e com os outros. Ou melhor, a separação radical tradicional entre público e representação desaparece no «espaço intermédio», uma vez que desaparece a separação entre bastidores e palco, desencadeando, assim, uma real interacção entre a representação e o público. Com efeito, ao conhecer os bastidores da representação, o público passa a ser também virtualmente actor, sem deixar de ser espectador. Ou seja, a fronteira que demarcava estes dois territórios desaparece, dando lugar a uma outra fronteira que já não só separa, mas também une, põe em relação, liga, funcionando como ponte, permitindo que o espectador interaja com o palco, com os actores e a própria representação. A invasão do olhar do público sobre os bastidores não pode deixar de condicionar a própria representação em todas as suas dimensões.
Também Jesús Timoteo, no seu excelente «Gestión del poder diluído», de 2005 (Madrid, Pearson: 244), refere este conceito aos media:

os media, diz ele, «conseguiram que os níveis de decisão dos indivíduos não estejam situados nem em âmbitos de massas nem sequer num âmbito de isolamento pessoal, mas sim num espaço intermédio de esfera social».

3. Eu acrescentaria que este é precisamente o ponto de passagem onde se estrutura o novo espaço público deliberativo e onde entram a política deliberativa e a democracia deliberativa, no sentido em que as concebe o Habermas de «A inclusão do Outro» («Die Einbeziehung des Anderen. Studien zur politischen Theorie», Frankfurt/A/Main, Suhrkamp, 1996) ou de «Facticidade e validade» («Faktizität und Geltung. Beiträge zur Diskurstheorie des Rechts und des demokratischen Rechtsstaats», Frankfurt/A/Main, Suhrkamp, 1992), ou seja, lá onde o «espaço intermédio» é o lugar onde ocorre essencialmente esse processo que conduz à conversão e à institucionalização política e institucional da opinião pública que nele se exprime. É isso mesmo que diz Habermas:

«No interior e no exterior dos corpos políticos programados para deliberar, estas comunicações sem sujeito formam “arenas” onde – acerca de temas relevantes para toda a sociedade e em torno de matérias que necessitam de regulação – pode acontecer uma formação mais ou menos racional da opinião e da vontade. A formação informal da opinião desemboca em decisões eleitorais institucionalizadas e em deliberações legislativas através das quais o poder comunicativamente produzido é transformado em poder administrativamente utilizável» («L'inclusione dell’altro, Milano, Feltrinelli, 1998: 244-245).

4. O que encontramos, portanto, nesta obra do Prof. Tagliagambe, quase como a confirmar esta sintonia, é uma formulação da emergência de um «espaço intermédio» que parece coincidir com a Habermas, mas sobretudo com a de Meyrowitz, ao concebê-lo como uma nova, palavras suas, «intimidade entre público e privado» ou como o «go between entre individual e social» (2009: 213). Uma intimidade só possível quando as fronteiras deixam de ser muros inultrapassáveis para passarem a ser espaços de intermediação e de conexão, onde, portanto, o individual se converte em social e o social retro-age sobre o individual. Mas uma retro-acção de novo tipo, já que o individual, neste modelo, nunca pode ser subsumido por esse universal que é o público ou o social. E não pode precisamente porque ele já reside num «espaço intermédio».
Pois bem, este livro do Prof. Tagliagambe é uma vasta e variegada fundamentação da pregnância actual do conceito de «espaço intermédio» e da ruptura que ele opera com o velho individualismo metodológico. Uma fundamentação que encontra suporte num complexo disciplinar e científico muito vasto e rico. Aliás, o título do livro condensa muito bem o programa que vem desenvolvido no seu interior. Vejamos o título: O Espaço Intermédio - rede, indivíduo, comunidade.

5. Comecemos pela Rede. A Rede é um «espaço entre», comandado por uma lógica relacional, não convertível numa lógica substancialista, aristotélica, nem na relação sujeito-objecto. Ou seja, colocando o meu discurso mais perto do discurso do autor: com a rede verifica-se uma passagem do pensamento centrado na ideia de substância (que os gregos designavam por tò hypokeímenon, e, que, depois, o racionalismo e o idealismo modernos haveriam de converter em sujeito), para o pensamento centrado na ideia de relação, enquanto «modalidade primitiva do real», lá onde o sujeito é constituído por uma matriz relacional, seja no plano diacrónico seja no plano da sincrónico, seja no plano interno seja no plano externo. Lá onde, afinal, o sujeito adquire também o estatuto de uma variável, ou seja - para usar as palavras do Habermas da «Querela sobre o Positivismo» - onde se pode dar uma síntese entre substância e função.
Na rede, desenvolve-se um saber relacional e uma «inteligência conectiva» que é, ao mesmo tempo, uma «inteligência colectiva», mas multipolar – eu diria também «with no sense of place», glosando o título do livro de Meyrowitz -, uma inteligência, pois, que reside nesse «espaço intermédio» que é a própria rede.

6. Depois, o Indivíduo. O indivíduo não é aqui concebido como o sujeito próprio da lógica aristotélica. O indivíduo constitui-se como um processo mediado. Precisamente no sentido em que o concebe Gramsci: l’uomo è ciò che può diventare, o homem é aquilo em que se pode tornar. Vale a pena citá-lo, a partir dos «Quaderni del Carcere»:

«ponendoci la domanda che cosa è l’uomo, vogliamo dire: che cosa può diventare», ou «l’uomo è un processo e precisamente è il processo dei suoi atti» ou, ainda, aproximando-nos mais, «ogni individuo non è solo la sintesi dei rapporti esistenti, ma anche della storia di questi rapporti, cioè il riassunto di tutto il passato» (Quaderni del Carcere, Torino, Einaudi, 1975: 1343-1346; Q., 10).

Esse indivíduo de que Gramsci fala faz parte do género humano precisamente através das várias comunidades em que participa, sendo, portanto, também, modelado e construído por elas. É claro que em Gramsci a vontade e a razão individuais também lá estão para desempenhar o seu papel naquela que se poderia conceber como uma ontologia social, onde o homem seria mais um resultado do que um processo onde ele próprio participaria activamente:

«occorre concepire l’uomo», diz ele, «come una serie di rapporti attivi (un processo) in cui se l’individualità ha la massima importanza, non è però il solo elemento da considerare», porque, para Gramsci, a humanidade é composta pelo indivíduo, pelos outros homens e pela natureza, e onde as relações são orgânicas (Q., 1345).

Ou seja, retomando o livro aqui em causa, o indivíduo torna-se cada vez mais comunidade, na medida em que a comunidade o «sobredetermina», para usar o feliz conceito do Althusser de «Pour Marx» [1965] (Paris, Maspero, 1973, 87-116; 206-224), modelando-o, ao mesmo tempo que o obriga a olhar para si próprio como um ser-em-comunidade, complexo, que contém em si uma vasta sedimentação dos seus próprios estádios de desenvolvimento num processo evolutivo e interactivo com o exterior. É por isso que Tagliagambe fala também, não de «pertença» do indivíduo ou sujeito na sua relação com uma organização, mas de «multipertença» (de diferentes nível, significado e valor) e fala da natureza anfíbia do homem (seguindo Hegel), a significar a sua relação de equilíbrio dinâmica, activa, aberta e plural com o mundo exterior (2009: 105-106), que retro-age sobre ele, modificando-o e articulando-o (2009: 108-110).
Trata-se, pois, de um conceito de homem bem afastado das visões essencialistas, metafísicas ou subjectivistas da natureza humana.

7. Finalmente, a Comunidade. A interpenetração entre indivíduo e comunidade compreende-se muito bem se a pensarmos a partir da rede: nem o indivíduo é subsumido nela, nem a comunidade é subsumida no indivíduo/sujeito. Pelo contrário, a comunidade que se constitui no ciberespaço pressupõe uma fortíssima afirmação do indivíduo singular, possibilidade que não era visível na era dos media convencionais, porquanto ele sofria uma inevitável compressão a cargo de mediadores centrados subjectivamente, quer como sujeitos produtores de informação quer como organização-emissora de informação, ou seja, como sujeitos detentores de um exlusivo poder administrativo, discricionário e instrumental: editores, «gatekeepers», managers, proprietários. De resto, a lógica «broadcasting» é uma lógica própria da relação sujeito-objecto, emissor-receptor, produtor-consumidor. Ou seja, é uma lógica de natureza instrumental, para usar a modulação conceptual da Escola de Frankfurt.
Ora acontece que, com a Rede, esta comunidade se constitui como um verdadeiro «espaço intermédio» onde não há extremos em oposição directa ou relações puramente instrumentais, mas sim variáveis em relação, dotadas de densidade ontológica.
Castells estabeleceu uma interessante distinção entre a lógica tradicional - de tipo sujeito/objecto, substancialista e virtualmente instrumental, presente nos media convencionais, que se movem segundo o módulo «broadcasting» e no interior de uma relação de tipo one-to-many - e a lógica relacional, que está presente na rede e nas comunidades que nela estão integradas. A comunidade virtual do ciberespaço é uma comunidade que não tende a anular a liberdade do sujeito individual, como acontecia na generalidade das comunidades tradicionais. Antes, pelo contrário, ela devolve-lhe uma centralidade que não possuía sequer na sociedade mediática, abrindo-lhe um espaço de intervenção activa na comunidade, livre de mediações de tipo administrativo, próprias dos velhos e poderosos «gatekeepers» ou senhores da opinião.


8. O que aqui se passa é, afinal, algo que os filósofos sempre procuraram, ao pretenderem resolver aquilo a que Tagliagambe chama «ansiedade cartesiana», resultante do dualismo incomponível entre a ideia e o real, o género e o indivíduo, o sujeito e o objecto, o universal e o particular. O «espaço intermédio» é a solução que escapa aos problemas de subsunção recíproca quando o dualismo entre ser-pensamento procura superar-se sem sair de si. Uma solução diferente da que Heidegger propõe com esse grande mediador que é o Ser, esse «transcentente puro e simples» («Sein ist das transcendens schlechthin», de que fala na Carta sobre o Humanismo (Paris, Aubier, 1964, 92-93), mas mais próxima daquela que vê na instituição jurídica um «espaço intermédio» que tem como missão desenvolver um processo de funcionalização do singular ao universal, e vice-versa, e que representa, ao mesmo tempo, esse hibridismo que Hegel vê no homem e que já Maquiavel também via, quando, no «Príncipe», falava da necessidade de conjugar no exercício do poder «la golpe e il lione», o leão e a raposa, o pensamento e a força, vista essa natureza centáurica ou híbrida do homem.

9. Só que o novo «espaço intermédio» é algo que verdadeiramente conserva e supera, mas para além do registo hegeliano da Aufhebung, ainda demasiado prisioneira de uma filosofia do sujeito. Como se se tratasse de uma espécie de ontologia da relação. Este espaço tem, assim, muitas virtualidades, sobretudo no processo evolutivo de uma democracia que está a encontrar limites tais que a podem tornar funcionalmente inútil. Este «espaço intermédio», que não é uma utopia, já que ele é visível em todos os planos do sistema-vida em que nos inserimos e movemos, como tão bem este livro do Prof. Silvano Tagliagambe nos demonstra, pode constituir, se o intensificarmos, o assumirmos e fizermos dele o nosso verdadeiro «habitat» humano, uma poderosa alavanca para sairmos dos impasses que nos estão a bater à porta cada vez com mais intensidade, desde o equilíbrio do ecossistema até aos desequilíbrios de uma democracia electivamente cada vez mais anémica. E o livro do Prof. Tagliagambe, pelo seu vigor argumentativo, pode muito bem constituir um excelente tónico para a luta daqueles que aliam a emancipação individual, cívica e cultural, ao compromisso para com o próprio, e cada vez mais ameaçado, ecossistema.

10. O espaço intermédio é, afinal, o ambiente onde melhor pode desenvolver-se uma interacção produtiva e sustentável entre indivíduo e sistema, substância e função, vontade e meio. Traduzindo socialmente estas relações, podemos dizer que o espaço intermédio é o meio onde melhor se conjugam a «ética de convicção» e a «ética da responsabilidade». E é a rede que constitui essa teia inovadora onde, finalmente, é possível conjugar a ideia de comunidade com a plena afirmação da singularidade individual. Onde a máxima liberdade pode, de facto, conviver com a máxima responsabilidade, dando, assim, voz ao kantiano imperativo categórico: «age como se a máxima da tua vontade possa sempre valer ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal» (Kant, E., 1966, Critique de la raison pratique, Paris, PUF, p. 30).




domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Rede, o Poder e o Contrapoder

João de Almeida Santos

Novo!
(Publicado também em http://www.tendencias21.net/ no blog «comunicacion/es»)

En este ensayo intento caracterizar al nuevo espacio público deliberativo que ha nacido con la red, proponiendo al mismo tiempo una reflexión en torno al problema de la regulación de los flujos informativos y comunicacionales en este espacio y a las tentativas de su controlo por parte de los poderes nacionales, en nombre de su soberanía, pero en conflicto abierto con el derecho de los ciudadanos a la libertad de información y de comunicación. Un problema que no se pone sólo a los regímenes autoritarios sino también a las democracias representativas. Un problema de regulación entre el Estado y el ciudadano


«O nosso objectivo é mudar o mundo»
«Nuestro objetivo es cambiar el mundo»

Eric Schmid, chefe executivo do Google


I.
«Senhor HU, deite abaixo este Grande Firewall!»

Regresso a um tema que ganha cada vez mais importância nos dias que correm. A propósito do caso Google/China, alguém já falou de um combate digital entre um David e um Golias. Outros dizem que só a consciência da própria força é que permitiu ao Google enfrentar abertamente o colosso chinês, em vez de negociar nos bastidores, como é próprio do mundo empresarial ( PISANI, Francis, "Cyber power": Google se enfrenta a China,«EL País», 02.02.10, p. 27). A questão motivou uma intervenção de Hillary Clinton, exigindo publicamente respeito pela Web a nível global e defendendo a liberdade universal online. Com refere Timothy Garton Ash (La guerra fredda digitale tra USA e Cina, «La Repubblica», 1.2.10, p. 27), sem ser tão radical como Ronald Reagan - quando, dirigindo-se a Gorbatchov, disse, em Berlim, «Senhor Gorbatchov, deite abaixo este Muro» -, Hillary disse, de facto: «Senhor Hu, deite abaixo este Grande Firewall»!
Sobretudo, o que está em questão, com a actualíssima questão chinesa (ou iraniana), é a relação entre a universalidade da Rede, a liberdade individual e as soberanias nacionais. Questão que se põe à China ou ao Irão, outro protagonista da censura digital, e em geral àqueles que já são considerados, pelos Repórteres Sem Fronteiras (ALANDETE, David , La red espía tus movimientos, in «El País» 08.02.10, p. 32-33) , como «os 12 inimigos da Internet» (Cuba, Egipto, Coreia do Norte, Síria, Tunísia, Arábia Saudita, Vietname, Myanmar, Turkemenistão e Uzbekistão, além da China e do Irão), mas que se põe também às democracias ocidentais. É claro que a verdadeira questão é a questão da liberdade de informação e comunicação, sobretudo quando, por um lado, estamos perante uma escala global e um acesso globalmente livre (em teoria) e, por outro, estamos perante sistemas políticos nacionais mais ou menos autoritários, tradicionalistas ou fundamentalistas, que não podem conviver com a livre circulação da informação, vertical ou horizontal que seja. E também é claro que não podemos falar somente em liberdade política, de opinião, de informação e de acesso ao conhecimento. Falamos também de entretenimento, de acesso a bens, de comércio, de negócio, de actividade económica. De uma realidade muito bem retratada por Don Tapscott, na estimulante Introdução ao livro de Juan Luís Cebrián, La Red: «o mundo desenvolvido está a deixar de ser uma Economia Industrial baseada no aço, nos automóveis e nas estradas para se converter numa Economia Digital baseada no silício, nos computadores e na rede» (CEBRIÁN, J.L. La Red, Madrid, Suma de Letras, 2000: 20). Ou seja, daquela transição que Nicholas Negroponte identificava, em «Being Digital» (1995), como passagem dos átomos aos bits. Mas falamos também da emergência de um universo que não está imune, bem pelo contrário, às práticas desviantes, como a pornografia infantil ou o terrorismo. Falamos, pois, do ponto de vista dos conteúdos, de mundividências, de estilos de vida, de informação e cultura, de economia, de política, de comunicação e de práticas reais, tudo conteúdos circulantes sob forma digital, mas com um impacto decisivo sobre países, grupos sociais e indivíduos singulares. É por isso que a questão não se põe só para os países governados por sistemas autoritários. Ela põe-se também para as democracias ocidentais, sujeitas como estão a desvios claramente incompatíveis com os grandes princípios por que se regem – desde a ciberpirataria até à pornografia ou à pedofilia difusas, ao terrorismo. Trata-se também aqui, afinal, da questão de uma regulação dos fluxos informativos e comunicacionais que circulam na rede universal, que não afecte, todavia, a liberdade responsável. A questão é, porém, bem mais complexa do que a que se põe aos meios de comunicação tradicionais, sabendo nós que, afinal, a própria regulação dos media tem sido tão sensível quão difícil e complexa, até quase à impraticabilidade. Porque a Rede tem uma dimensão global, tratando-se, ao mesmo tempo, de um sistema muito mais complexo, estruturado a partir de uma lógica relacional (a da relação «many-to-many»), massificado, mas individualmente centrado, com diversas modulações de acesso, emissão, recepção e interacção e sem centros de comando equivalentes aos dos media tradicionais. Uma regulação, portanto, muito mais difícil e complexa. Além disso, neste mundo da globalização de processos e da comunicação continuam a manter-se as soberanias nacionais, as lógicas, os processos e as relações locais. E a própria natureza, por mais que se queira, ainda continua a caminhar com os ritmos implacáveis da sua própria e lenta temporalidade. De resto, alguém definiu esta coexistência com uma palavra de compromisso: glocal, ou seja, pensar global e agir local. E a questão também é esta: até que ponto a lógica global tenderá a colonizar a acção local? Ou, então: até que ponto a lógica local tende a reforçar-se e a criar mecanismos de defesa perante uma ameaça de colonização por parte de uma lógica global, exógena, externa? O problema, como se sabe, consiste em compatibilizar a preservação das identidades locais ou nacionais, a sua, digamos, soberania, com a assunção da lógica global, demarcando os planos em que se afirmam ambas. No fundo, é sempre a questão da relação entre sistema e indivíduo, entre universal e particular, lá onde é sempre indesejável que um subsuma o outro, sobretudo, aqui, onde desapareceram os mediadores. Foi por isso que se formulou essa ideia de traduzir o pensamento global na linguagem da identidade local: glocal. Mas a questão é incontornável: pode um Estado autoritário conviver com uma informação sem fronteiras - suportada, além disso, numa infra-estrutura global, como é a Rede -, mesmo que se trate de um despotismo iluminado? O que regressa sempre ao debate é a própria questão democrática. E, assim, a questão de um novo espaço público deliberativo que remete mais para o indivíduo singular do que para as grandes organizações. De resto, a questão da compatibilidade entre as identidades nacionais e uma cidadania universal (embora ele estivesse mais preocupado em fundamentar uma cidadania europeia) foi muito bem analisada e demonstrada por Habermas num texto sobre «Cidadania e identidade nacional»
(HABERMAS, J., Cittadinanza e identità nazionale, in MicroMega 5/91, Roma, pp. 123-146).

II. Uma mudança de paradigma no espaço público deliberativo


A verdadeira questão reside, pois, na natureza do novo espaço público que resultou da emergência da rede e da sua interacção com media convencionais que, no interior do seu limitado modelo de comunicação, também já falavam uma linguagem global, embora sempre na óptica da relação emissor-receptor, enquanto relação sujeito-objecto. Ou relação «one-to-many», como diz Castells, mais afim a uma lógica de natureza instrumental.
Longe vão, pois, os tempos em que o espaço público era a rua ou a praça ou em que estava delimitado apenas pelas fronteiras da imprensa ou dos media convencionais, como a televisão. Este era um espaço controlado pelos chamados «gatekeepers», pelos Senhores da Opinião, pelos «Cães de guarda» do público, por aqueles que venho designando como «agentes orgânicos do poder mediático», os que ocupam com regularidade um espaço nos «púlpitos» (e nas «sacristias») do sistema mediático. E é claro que este espaço tanto era um espaço de livre informação, opinião e saber, capaz de descodificar para os cidadãos o exercício do poder, como se transformara também num espaço instrumental para conquistar, preservar e reproduzir poder. Este tornou-se também naquele espaço onde os «spin doctors» manipulavam para desviar atenções e orientar a agenda pública ao sabor de interesses muito resguardados, fossem eles políticos ou económicos, de governo ou de oposição.
Ora a rede, com todo o arsenal de instrumentos de acesso directo ao espaço público que ela própria integra e configura, veio alterar tudo isto, dando a possibilidade aos cidadãos de acederem directamente à informação, mas também ao próprio espaço editorial, tornando-se eles próprios produtores de informação e de opinião. Neste sentido, a rede veio relativizar o poder dos media convencionais, construindo um novo espaço público muito mais complexo e muito mais democrático, capaz de revolucionar as próprias relações entre o poder mediático, o poder económico, o poder político e os cidadãos.

III. O novo espaço público deliberativo e os seus inimigos


Manuel Castells identificou, em «Communication, Power and Counter-Power in the Network Society» (in «International Journal of Communication», Vol. 1, 2007), esta nova realidade através do conceito de «mass self communication», de comunicação individual de massas. Conceito que até parece, à primeira vista, contraditório, já que a afirmação individual resiste à ideia de uma sua anulação nesse universo compacto das massas. Mas é por isso mesmo que ele é interessante. Com efeito, quando se fala deste universo, na «mass self communication», fala-se na capacidade expansiva universal do sistema em rede, precisamente a partir de pólos individuais, mas múltiplos ao infinito. Lá onde o acesso é directo e sem mediações, mas onde, por isso mesmo, esta possibilidade de expansão está condicionada, à partida, pelas competências do próprio emissor individual, pela sua capacidade de produzir conteúdos consistentes e de os difundir no interior do sistema, pela sua genialidade e também pela sua capacidade de entrar no sistema dos media convencionais, ainda indispensáveis para uma boa difusão na própria rede. Trata-se, pois, de uma poderosa revolução que permite agir directamente no interior do espaço público como nunca, antes, acontecera. Um espaço público que, agora sim, pode ser considerado como um verdadeiro espaço público deliberativo. Mas é por isso mesmo que muitos – por exemplo, o próprio Castells - já começam a chamar a atenção para as manobras vastíssimas que se estão a verificar neste espaço, o da rede, não só através da sua ocupação pelos media convencionais, no plano dos conteúdos e dos seus «agentes orgânicos», mas também internamente, por parte de grupos ou de países – como a China, com a sua «Grande Muralha de Fogo», ou seja, a censura online da República Popular - que temem que este se venha a transformar num perigoso espaço de contrapoder, ameaçador de uma ordem que não pode conviver com a liberdade própria deste novo espaço público deliberativo. Diz Castells: as elites dominantes vêem-se, assim, desafiadas por movimentos sociais, projectos de autonomia individual ou políticas insurreccionais que encontram um ambiente muito mais favorável nesse universo emergente da «mass self communication». Deste modo, ao que se assiste é a uma nova fase e a um novo modo de construção do poder no espaço de comunicação, quando os poderosos compreendem que é necessário responder ao desafio lançado pelos networks de comunicação horizontal. Que significa isto, diz ele? Significa ter necessidade de vigiar a Internet, como acontece nos USA, apesar de nem assim conseguirem evitar as constantes intrusões no seu sistema, designadamente por parte da China, tendo-se registado, só entre Janeiro e Junho de 2009, 43.785 casos de ciberpirataria, no que vem sendo uma subida exponencial desde 2000 (de 1415 para 87.570, em 2009) (Fonte: Reuter/La Repubblica); de controlar manualmente o correio electrónico, se não se dispuser de um robot em condições de o fazer, como comprovado pelas últimas descobertas na China, onde, segundo Federico Rampini, 15.000 técnicos trabalham em permanência no controlo da informação, muitas vezes usando os mesmos métodos dos ciberpiratas; de tratar os utentes da Internet como piratas e vigaristas, como está abundantemente previsto na legislação da UE; de adquirir «sítios» da WEB de social networking, para controlar as suas comunidades; de adquirir as infraestruturas de rede para fazer discriminações nos direitos de acesso. Em suma, de recorrer a tantas tácticas de controlo e de delimitação daquele que é o mais recente modelo de espaço de comunicação.

Isto diz Castells. E com isso ele quer dizer que esta grande revolução no espaço público começa agora, muito antes de ter despoletado a suas imensas e exponenciais capacidades, a conhecer ela própria a sua própria contra-revolução. Porque do que aqui se trata, de facto, não é ainda, infelizmente, da desejada regulação, mas de controlo, de censura e de ciberespionagem. Ou mesmo de desqualificação, por parte de personagens insuspeitos, Finkielkraut o Séguéla, que, num momento certamente menos feliz, ousaram considerar a Net como «poubelle de la démocratie» ou como «la plus grande saloperie jamais inventée» («Nouvel Observateur», Nov./Dez., 2009). Uma coisa é certa: o mundo não volta para trás e a natureza da Internet é tal que o controlo se torna cada vez mais difícil. E o que eu creio é que ela já nos trouxe mais coisas positivas do que negativas. E uma delas é a do poder que o indivíduo singular readquiriu, ao libertar-se desses intermediários que tendem sempre a transformar a própria mediação em princípio e fim do processo democrático. Como dizia Bill Gates: «a China, de qualquer modo, será melhor do que antes, graças a nós». Mas eu creio que não é só a China: é o mundo em geral.